Este fim-de-semana, enquanto fazia as minhas compras de Natal, entro numa loja de brinquedos. Fiquei surpreendida (ou talvez não, dado que seria de esperar) por encontrar, suspensas do tecto, duas “placas”, que indicavam os locais dedicados aos brinquedos de rapaz e aos de rapariga. Porquê esta divisão? Porque é que alguns brinquedos são (supostamente) só para rapazes e outros só para raparigas? Por que razão uma rapariga não poderá brincar com carros ou “action man”, normalmente ligados aos rapazes, e um rapaz não poderá brincar com bonecas, usualmente associados a raparigas? Na verdade, actualmente, aceita-se com mais naturalidade que uma rapariga brinque com objectos geralmente associados a rapazes do que um rapaz que use brinquedos normalmente associados a raparigas. Que consequências terá esta discriminação (por que não chamá-la pelo nome?) na formação das crianças? Dado que os brinquedos são uma componente importantíssima no crescimento e formação das crianças, esta discriminação terá, certamente, algumas consequências. Os brinquedos normalmente associados a raparigas são bebés, cozinhas, etc., servindo estes para educar boas donas de casa submissas aos futuros maridos. No caso dos rapazes, noto que é frequentemente usada a força física como sinónimo de poder, de domínio. Outra das consequências que extraio desta discriminação é a possível intolerância face a comportamentos tidos como “anormais”, dando como o exemplo o facto de geralmente se associar à homossexualidade um rapaz que brinque com bonecas. É certo que a educação que recebemos na escola tende a que sejamos toleráveis, mas é natural que não sejamos totalmente toleráveis, dada a educação anterior.
Concluindo, valores como a tolerância, o respeito pelos outros, a aceitação da diferença, etc., são tidos como fundamentais. No entanto, penso que, enquanto houver discriminação em coisas tão fundamentais para a nossa formação como os brinquedos, não conseguiremos atingir plenamente esses objectivos/valores.